Tinha acabado de chover e o motociclista estava ao chão. Teve um acidente na pista chamada fazendinha que liga a cidade do Recanto das Emas, no DF, à da Samambaia. Havia uma chateza inicial do trânsito parado, com todo mundo querendo voltar para casa. Era noite escura e turva, a chuva caia forte com aquelas gotas grossas, até que, em meio à luz de um carro posicionado a alumiar a vítima, surge ele, o salvador.

O policial está em pé, ereto, em posição, a proteger a vida do condutor. Está erguido perante a plateia de carros, mas ninguém mais liga para o atraso, para o trânsito, porque, meus caros, não há ocorrência mais nobre que a da salvação.

O policial não se abala em nada. A água escorre pelo seu rosto, desce à sua farda e às suas botas, até, por fim, se misturar com o rio que caminha pelo chão. O cheiro da chuva traz algo transcendental, como que uma aura poderosa, enchendo de pura energia o ambiente daquele lugar.

O policial se inclina a proteger a vítima. Vejo a multidão sem fazer nada. Fico a protestar que ninguém desce para ajudar e desço do carro para tentar alguma coisa. Porém, quando lá chego, vejo uma senhora, molhada da chuva, doando suas sombrinhas. Olho melhor e já vejo outro casal que ali também já ia se adiantando. O policial se confunde com a multidão.

O policial está acompanhado de uma multidão de motoristas que, de alguma forma, silenciosa, lhe transmite a silenciosa e vibrante energia. O policial é a multidão.

O policial chega a ficar de costas para a platéia. Alguém poderia dizer que não é boa prática, mas, cá entre nós, tivesse um traficante passando por ali, esse mesmo daria continência ao nosso salvador. O policial é tipo evidente de herói.

O policial não estava em viatura, mas dirigia carro simples. A farda não tinha mais goma. Certamente estava voltando do expediente. Dentro do veículo, poderia se furtar à honra, disfarçar e não ajudar. Poderia não fazer nada que ninguém o veria. Mas fazer nada não lhe é opção. O policial tem o poder-dever. O policial é o dever.

O policial merece os cumprimentos da multidão, mas talvez sua glória seja ser um ilustre desconhecido, ocultado da exaltação. Não precisa de troféu. Já coleciona medalhas diárias no cumprimento do ofício.

O policial não sabe, mas tem minha devoção. Que fique você, leitor, orgulhoso, como estou agora, ao escrever com tamanha admiração.

Nobre policial, de quem nem sei o nome, onde quer que esteja, ao ler isso, receba minha gratidão!

Sobre o autor

DAVI DO NASCIMENTO (61998559560 – “ZAP”)

Instagram: @davi_do_nascimento_df. Licenciatura em Líng. PortuguesaUnB (Univ. de Brasília) e pós-graduado em Revisão de Texto, é também operador do Direito (Estácio). Sua paixão é poesia (1º Lugar em Concurso Literário de CONTOS do TJDFT – 2008).Além de especialista em redação, sendo 1º Lugar em Redação de Concurso da PCDDF (CESPE-2014), é Servidor Público Federal – TJDFT