Era um dia lindo de Sol. O simples professor chegava no metrô, onde se deparou com duas adolescentes e, gentilmente, as cumprimentou: “Boa tarde, meninas!”Não sabia ele, mas estava participando, ali, da guerra dos gêneros.“’Meninas’ não, nos chame de menines” disseram elas, com um olhar de ódio. Quanto a mim, fiquei acuado.Isso mesmo, leitor, “menines”. Agora estão matando as pobres das coitadas das palavras. O assassinato (quase um homicídio qualificado) reside no extermínio das vogais “o” e “a” em “meninos/meninas”, que, no local do flagrante crime, virou isso aí: “menines”, numa tentativa de forçar o substantivo a ter gênero neutro.Entenda, eu não sou careta não. Deixe-me explicar. Acho maravilhosa a luta dos grupos sociais, inclusive de quem busca revolucionar algo (os revolucionários) ou reagir contra qualquer coisa estabelecida (os reacionários). É algo tão atual que até deu na televisão que, no Canadá, as crianças estão nascendo com identidade sem identificação do gênero para que, no futuro, elas decidam o gênero que possuem.Contudo, cá entre nós, matar os substantivos não pode. O que tem a ver a Língua com essa guerra?Eu devia mesmo ficar bem ali, calado, recolhido. Até porque poderia ser uma declaração de guerra. Elas estavam prontas ali mesmo, com meias coloridas estendidas até a canela (embora fosse um calor lascado) e, sem ironia, maravilhosamente lindas. Pior que isso, caso eu retrucasse, ia parecer que estava do lado desse povo velho e sem graça que mata a língua do povo, escrevendo gramática e proibindo as coisas.“É que não existe ‘menine’”, disse eu. Tentei explicar que ser NEUTRE é uma bandeira instigante, mas que mudar a vogal temática (“o” e “a”) não iria mudar o gênero de uma palavra. “O artista” termina com “a” e é masculino. E tem palavra que termina com “o” e é feminina: “a ação, depressão, impressão”.Eu ainda entrei no caso específico delas, no tal do “menine”. Detalhei que terminar uma palavra com “e” não faz dela algo neutro. “A alface” termina com “e”, porém, é feminino. Já “o elefante”, que também termina com “e”, é do gênero masculino. Foi tudo em vão.

Elas me disseram: “menine”. “Isso tá bom pra gente”.Lembrei, contudo, que tinha o tal do artigo, que, por exemplo, para determinar o ser que realiza algo (substantivo), possui a forma “o, a, os, as”, e, para indeterminar, “um, uma, uns, umas”. Explicando isso, perguntei como gostariam de ser chamadas: “o menine” ou “a menine”.Finalizaram-me com: “e menine”. “Fica ótimo”.Quase faleci. A forma “E menine”, que, para mim, está mais para nome de anticoncepcional, matou também os pobres artigos. Prudente que sou, me meti no vagão mais longe dali e encerrei a conversa para ver se ainda dava para salvar os coitados dos adjetivos.

Era um dia lindo de Sol. O simples professor chegava no metrô, onde se deparou com duas adolescentes e, gentilmente, as cumprimentou: “Boa tarde, meninas!”Não sabia ele, mas estava participando, ali, da guerra dos gêneros.“’Meninas’ não, nos chame de menines” disseram elas, com um olhar de ódio. Quanto a mim, fiquei acuado.Isso mesmo, leitor, “menines”. Agora estão matando as pobres das coitadas das palavras. O assassinato (quase um homicídio qualificado) reside no extermínio das vogais “o” e “a” em “meninos/meninas”, que, no local do flagrante crime, virou isso aí: “menines”, numa tentativa de forçar o substantivo a ter gênero neutro.Entenda, eu não sou careta não. Deixe-me explicar. Acho maravilhosa a luta dos grupos sociais, inclusive de quem busca revolucionar algo (os revolucionários) ou reagir contra qualquer coisa estabelecida (os reacionários). É algo tão atual que até deu na televisão que, no Canadá, as crianças estão nascendo com identidade sem identificação do gênero para que, no futuro, elas decidam o gênero que possuem.Contudo, cá entre nós, matar os substantivos não pode. O que tem a ver a Língua com essa guerra?Eu devia mesmo ficar bem ali, calado, recolhido. Até porque poderia ser uma declaração de guerra. Elas estavam prontas ali mesmo, com meias coloridas estendidas até a canela (embora fosse um calor lascado) e, sem ironia, maravilhosamente lindas. Pior que isso, caso eu retrucasse, ia parecer que estava do lado desse povo velho e sem graça que mata a língua do povo, escrevendo gramática e proibindo as coisas.“É que não existe ‘menine’”, disse eu. Tentei explicar que ser NEUTRE é uma bandeira instigante, mas que mudar a vogal temática (“o” e “a”) não iria mudar o gênero de uma palavra. “O artista” termina com “a” e é masculino. E tem palavra que termina com “o” e é feminina: “a ação, depressão, impressão”.Eu ainda entrei no caso específico delas, no tal do “menine”. Detalhei que terminar uma palavra com “e” não faz dela algo neutro. “A alface” termina com “e”, porém, é feminino. Já “o elefante”, que também termina com “e”, é do gênero masculino. Foi tudo em vão.Elas me disseram: “menine”. “Isso tá bom pra gente”.Lembrei, contudo, que tinha o tal do artigo, que, por exemplo, para determinar o ser que realiza algo (substantivo), possui a forma “o, a, os, as”, e, para indeterminar, “um, uma, uns, umas”. Explicando isso, perguntei como gostariam de ser chamadas: “o menine” ou “a menine”.Finalizaram-me com: “e menine”. “Fica ótimo”.Quase faleci. A forma “E menine”, que, para mim, está mais para nome de anticoncepcional, matou também os pobres artigos. Prudente que sou, me meti no vagão mais longe dali e encerrei a conversa para ver se ainda dava para salvar os coitados dos adjetivos.


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DAVI DO NASCIMENTO (61998559560 – “ZAP”)

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